Uma tentativa de explicação econômica para as manifestações que varrem o Brasil
Os partidos políticos não codificam as preferências dos cidadãos em políticas efetivas. Acredito que essa seja ao menos uma das causas estruturais para a onda de protestos que toma o Brasil. A lógica é, sempre, de incentivos. Em termos gerais, há um forte mecanismo de persistência dos partidos dentro do Estado; conforme sua representação no congresso cresce, seu acesso ao Fundo Partidário aumenta e sua participação na propaganda política também.
Uma vez no governo, esse efeito mecânico de sustentação dos partidos gera incentivos perversos contra a renovação de quadros e ligação entre partido e público. O comportamento estratégico óbvio dos políticos é negociar favores e apostar em ações direcionadas, utilizando a fonte abundante de recursos que é o Estado e fazendo uso de fisiologismo para passar legislação específica para seu eleitorado. Não há porque se preocupar com posição ideológica clara, porque todo o benefício decorre de avançar políticas oportunistas e manter-se na cadeira.
O resultado natural, do lado da oferta (políticos), é convergência ideológica, no sentido de que os partidos não precisam mais demarcar sua posição no espectro esquerda-direita. Contudo, essa teoria não explica comportamento pelo lado da demanda (eleitores). Por que os votantes deixaram de se preocupar tanto com diferenciação ideológica entre partidos? Talvez o benefício de políticas localizadas somado às melhoras em termos de qualidade de vida dos últimos 15 anos tenham legado ao elemento ideológico um peso praticamente desprezível no comportamento eleitoral.
O choque necessário para entender os protestos este ano, então, é de demanda. Do ponto de vista econômico, a ascensão de um grupo significativo de pessoas à classe média – se trouxe efetiva mudança no padrão de vida – pode ter tornado menos atrativas políticas específicas, com o indivíduo médio se tornando menos dependente do Estado; ao mesmo tempo, o recente salto no custo de vida potencialmente reduziu a tolerância geral com os desmandos políticos, tanto à esquerda quanto à direita. No âmbito ideológico, a Primavera Árabe e os recentes protestos na Turquia surtiram efeito por aqui, ao menos do ponto de vista organizacional. Tecnologicamente, é claro, as redes sociais foram capazes de turbinar as manifestações, tanto nas efusivas convocações às ruas, quanto fazendo as vezes de mídia alternativa – nos erros e nos acertos.
Presos em redes de fisiologismo e relações mais arcaicas, políticos e partidos necessariamente levarão tempo para se adequar às novas demandas. A ruptura na relação entre os cidadãos e os partidos tradicionais, no entanto, pode ser definitiva. Um ajuste de oferta mais provável talvez seja – do lado da direita – o nascimento de grupos que representem ideologicamente a juventude que saiu às ruas. Na esquerda, a sugestão óbvia é um fortalecimento de partidos que já estão por aí, mas são, quando muito, fracamente representados no congresso. Isso explica sua militância na rua, onde têm alguma chance de fazer política. Essa interpretação é compatível com o fato dos protestos abarcarem todo o espectro ideológico e com a ausência de consenso. Além disso, antecipa essa tendência de um movimento que se fragmenta, se não visivelmente – as pessoas podem continuar indo às ruas – ao menos na prática.
[…] http://liberaisdebarba.wordpress.com/2013/06/21/por-que-a-rua-por-que-agora/ […]